Separação

— Eu não disse que eram Kobolds? — falou Mu correndo com a espada em riste, já preparado para dar um golpe.

À frente do rapaz, em uma clareira da mata, o acampamento de pequenas criaturas humanóides conhecidas como kobolds se agitava enquanto as criaturinhas observavam maravilhadas um ovo amarelo que brilhava como fogo na pouca iluminação da noite.

Nas costas do rapaz seus três companheiros já se colocavam em ação: Zanshin, um tamuraniano de movimentos precisos, botou a mão no cabo de sua katana ainda embainhada, recitou algumas palavras em sua língua natal e correu na direção dos adversários com o olhar duro e focado; Sedrywen, uma elfa de vestes clericais e modos comedidos, levantou as mãos em direção aos seus dois companheiros enquanto orava em élfico; e por fim Prunna, uma dahlan de sorriso fácil que começou a tocar seu tambor alertando os poucos Kobolds que ainda não tinha percebido o ataque dos grupo, enquanto cantava em plenos pulmões:

"Como um incêndio no peito
que explode o coração
não sei nem de que jeito
sobrevivo a essa paixão"

Alguns minutos depois e os quatro já faziam o caminho contrário, voltando à cidade de Smokestone. Prunna ia cantando alegremente à frente.

— Essa alegria toda tem nome? — perguntou Zanshin alguns passos atrás da garota, enquanto terminava de limpar sua katana com cuidado antes de voltá-la à embainha.

— Você sabe que sim! — respondeu ela sorrindo com afeto.

— A questão não é se tem nome — falou Mu mais de trás, enquanto Sedrywen tentava enfaixar o ombro do rapaz — mas de quem estamos falando dessa vez.

— Calma Mu, não gesticula tanto. — disse a elfa enquanto prendia o curativo da melhor forma que conseguia — Eu já não consegui te curar com magia…

— Relaxa Sedrywen — devolveu o rapaz — eu to bem, eram só kobolds. Falando nisso, ainda não entendi como eles conseguiram aquele ovo.

— Acredito que tenha sido o acaso — respondeu o Tamuraniano.

— Você tá me dizendo que eles assaltaram a fazenda do prefeito sem saber que o ovo da fênix estaria ali? — perguntou Mu colocando sua camisa com a ajuda de Sedrywen – Obrigado.

— Acaso ou não, a gente recuperou o ovo e a festa vai acontecer. — Prunna finalizou a conversa dando uma piscada para os amigos. — A vida não é bela?

*****

Os quatro se encontravam sentados em uma das muitas mesas colocadas na praça principal de Smokestone, de frente para as várias churrasqueiras que exalavam a fumaça cujo aroma encantava a todos na cidade. A festa estava salva graças ao grupo que recuperou o item principal de sua abertura: costumeiramente o ovo da fênix acendia a primeira brasa e declarava o churrasco iniciado.

Com a barriga cheia do famoso churrasco e o bolso cheio de tibares, o grupo aproveitava a festa antes de ir embora da cidade.

— Esta iguaria faria sucesso em minha terra — declarou Zanshin comendo mais um pedaço de carne.

— Tá de sacanagem que em Tamu-ra vocês não têm churrasco! – Mu riu já um pouco alcoolizado.

— Não dessa forma. O de Smokestone é mais… — ele parou para pensar — Como vocês falam mesmo?

— Saboroso? — tentou Sedrywen.

— Gostoso? — chutou Prunna.

— Sei lá, suculento? — Foi a vez de Mu.

— Todos estão corretos — riu o tamuraniano — mas eu estava pensando em temperado. O carvão defuma a carne e deixa um gosto diferente e único. Lembro que da última vez que comi algo parecido em Tamu-ra, a esposa de… — e sua frase morreu

— Que foi, Zanshin? – se preocupou Prunna

— Me lembrei que na semana passada tive notícias da minha terra com aquele mascate que encontramos na estrada. Parece que a esposa do meu senhor foi amaldiçoada ou algo assim. — Ele olhou de lado para a sua arma. — Me preocupo se minha presença não poderá ajudar de alguma forma. Acho melhor voltar ao meu lar, mesmo que temporariamente.

— Bora pra Tamu-ra então! — declarou Mu levantando a caneca, esperando em vão a aprovação dos outros. — Ué, vocês não querem ir?

— Na verdade eu estava pensando — falou Sedrywen com cuidado. — Acho que eu preciso ver umas coisas com a minha ordem. Estou com algumas… dúvidas.

— Tá, então a gente passa lá a caminho de Tamu-ra — resolveu o rapaz, de volta com a caneca pro alto.

— Mas eu achei que a gente ia voltar pra Ahllen! — Prunna interrompeu mais uma vez.

— Ahh, entendi. Então a razão de tanta música de amor é lá de Ahllen — riu consigo Mu.

— É, algum problema? — respondeu ela.

— Não, de maneira nenhuma. — O rapaz levantou as mãos. — Só tá ficando difícil planejar nosso próximo passo se cada um quer ir para um lado.

Um silêncio incômodo se instaurou na mesa apesar de todo barulho da festa à sua volta. Mu deu de ombros e se levantou, dizendo que ia pegar uma bebida ou algo assim. Não voltou mais naquela noite.

*****

O sol já ia firme no céu quando eles se encontraram novamente na estalagem onde tinham se hospedado dias antes. Mu surpreendeu a todos no salão de refeições do local já com todo seu equipamento nas costas.

— Ué, você… — começou a elfa mas foi interrompida pelo rapaz.

— Olha, tá bem claro que cada um precisa fazer uma coisa diferente e a gente vai acabar se separando. 

— Infelizmente acredito que Mu está certo, Sedrywen — concordou Zanshin.

— Mas eu não to chateado com isso não, considero vocês meus amigos mais queridos e desejo toda sorte do mundo. Só não serei eu quem vai ficar esperando a hora em que a gente faz isso brigando ou algo assim.

— É — concordou a clériga — acho que você tem razão.

— Mas também não precisa ser um adeus né? — disse Prunna com os olhos marejados — a gente pode se encontrar novamente mais pra frente.

— Isso com toda certeza – Mu sorriu para amiga. – Eu não sei vocês mas eu acho que essa festa do churrasco é uma ótima desculpa pra gente se encontrar aqui novamente.

— Tentar recomeçar de onde paramos? — refletiu Zanshin — acho uma decisão auspiciosa.

— Nem que seja só pra gente se ver e rir um pouco — disse Mu.

— Mas um ano é pouco, pode ser em dois? — perguntou Prunna pensativa.

— Dois anos? Tá pensando em casar e ter filhos? — riu o rapaz.

— Os Deuses me livrem mas quem me dera — ela riu.

— Então tá combinado — setenciou Sedrywen e todos concordaram. — Nos vemos em dois anos.


Este conto foi criado como uma homenagem aos personagens da mesa “Jóias para Lamashtu” do canal da Twitch da Dragão Brasil. Foi escrito totalmente sem nenhum fim comercial, sendo uma fanfic que homenageia esta mesa que acho tão divertida. Não deixe de acompanhar suas aventuras todos os sábados às 18:00 no referido canal.