Recomeço

À sombra da solitária árvore seca que margeava a estrada a quilômetros de ambos os lados de um terreno árido, duas pessoas esperavam de mãos dadas. A primeira, um cavaleiro de pele azul e bigode rosa que ostentava uma armadura reluzente e um escudo circular com o símbolo de Valkaria. Ao seu lado, outra pessoa com uma armadura tão grande quanto seu companheiro, porém a altivez e orelhas pontudas revelavam ser meio-elfe. O cabelo roxo cortado em moicano e os olhos levemente estreitos não chamavam mais atenção do que o imenso escudo que mostrava os quinze deuses que restavam no panteão sagrado.

— Eles estão demorando — reclamou o cavaleiro azulado enquanto passava a mão na careca suada.

— Calma, Enkizinho — respondeu a outra pessoa sorrindo — nós que chegamos adiantades.

— Não entendo como consegue manter o bom humor nesse calor, Linrienn.

— Deve estar pior pra você, meu meio-dragão marinho— disse fazendo um afago no rosto do amado — Sempre que fica muito longe do mar você fica mau humorado.

— Também não entendo a razão da Mu querer fazer isso a cada dois anos. Tradição boba.

— Ela gosta de tradições, ué. E você sabe, foi aqui…

— Que nossos pais se encontraram depois de dois anos e começaram a recuperar os rubis da virtude, o que os levou a enfrentar o Mikazuki em Tamu-ra e salvar Arton, eu sei. Eu mesmo que recolhi os contos que a Mu trata como sagrados.

— E são! — disse uma voz vindo por trás da árvore, em meio a um show de luzes arcanas.

— Mu! — exclamou Linrienn, indo beijar a amiga.

— Você demorou — reprovou Enki levantando uma sobrancelha

A recém-chegada ainda tinha fumaça saindo do corpo por conta do teleporte. Era uma linda moça de pele morena, fartos cabelos encaracolados e olhar curioso. Usava um robe púrpura aberto do umbigo pra baixo e uma calça de algodão de cintura baixa, além de uma bolsa de viagem e um medalhão de prata retratando um chapéu de marinheiro, um cachimbo e uma espada cruzadas. Ela apontou um dedo na direção de Enki.

— Olha aqui, por sua causa o meu tio virou o Deus menor da perseverança — e ela apontou o medalhão no peito. —  Eu só insisto na gente se encontrar aqui a cada dois anos pra manter a memória das aventuras dele e dos seus pais viva, tenho certeza que a tia Prunna concorda comigo. Falando nisso, como estão seus pais, Linrienn?

— Ainda sem notícias. Foram enfrentar a área de tormenta de Tapista, mas me parece que a resistência lá está pior por conta do culto a Aharadak.

— Nem diga esse nome! — Mu tocou no medalhão instintivamente. — Dá um azar danado.

— E seus pais? — Perguntou o cavaleiro.

— Você sabe, ainda dois fazendeiros apaixonados contando sempre a mesma história de como o melhor amigo e filho da sacerdotisa desafiou o seu destino e foi embora para salvar o mundo. Tenho pra mim que eles foram os primeiros devotos do tio Mu — ela disse rindo.

— Acredito que sim — disse uma voz grossa por trás dos três que os assustou.

Parado na estrada estava um samurai com chapéu de palha escondendo o rosto, vestes próprias de Tamu-ra e uma katana na cintura. Os quatro ficaram imóveis. Mu, Enki e Linrienn olhavam sem entender quem era aquela pessoa que entrou na conversa sem ser chamada, mas assim que ele tirou o chapéu reconheceram o amigo.

— Rufo! — os três exclamaram em uníssono.

— Agora meu nome é Seru — disse o dahllan sorrindo para os amigues — mas sim, sou eu.

— Você não era um druida? — perguntou Mu com a mão no queixo e um olhar curioso.

— Perdi minha fé quando Allihanna deixou de ser uma deusa maior — o outro respondeu andando até seus amigos.

— Então foi por isso que você quis ir até Galrasia. — concluiu Enki.

— E como você parou em Tamu-ra e virou samurai? — perguntou Mu, analisando o amigo.

— Não parei. Em Galrasia, enquanto estava perdido sem minha fé, encontrei com sua avó — ele apontou para Linrienn — e as outras dragoas-caçadoras. Elas me treinaram no Kenssei Tanjou Ryu, assim como seu pai.

    — Não, tá de sacanagem! — exclamou a feiticeira ante o olhar de julgamento do cavaleiro — Sério, gente. A tia Sedrywen chegou aqui sem fé como uma brava guerreira justamente depois dos 2 anos de separação, assim como o… — parou tentando se lembrar — Seru!

    — Tá bom, Mu. —  Suspirou Enki —   Vai me dizer que isso é um sinal de alguma coisa?

    — Claramente! — Ela disse animada enquanto puxava da bolsa um livro velho.

    — Ah não! — O cavaleiro se virou e começou a andar pela estrada.

    — Calma, meu bem — falou Linrienn para o amado e se virou para a amiga — Você sabe que a saudade que ele sente do tio Mu é grande demais.

    — Mas foi ele mesmo quem escreveu esse livro!

    — Dá um tempo pro Enki — falou Seru calmamente colocando a mão no ombro da amiga — a gente mal se encontrou.

    — Ok — finalmente a feiticeira se rendeu — mas escutem o que eu estou falando: algo vai acontecer conosco como aconteceu com eles.

    Sem ninguém responder, finalmente todes pegaram a estrada a caminho de Smokestone.


— Agora eles estão de mal por conta de alguma coisa que meu pai fez — riu Enki enquanto bebia da caneca.

    — Minha irmã não é fácil, também — concluiu Seru rindo — sinto pena de Benthos.

    Era noite e eles estavam sentados em uma das mesas do festival. Pratos fartos de churrasco eram consumidos por diversas pessoas na praça, enquanto a deliciosa fumaça envolvia a todos e os alforges dos mais embriagados ficavam mais vazios pela ação de mãos leves. Mu chegou suada e bebeu de sua caneca que, agora com o conteúdo quente, provocou uma cara amarga na moça ao engolir.

    — Já cansou de dançar? — Perguntou Linrienn para a amiga.

    — Faz tempo! — Ela riu sentando na sua cadeira — só continuei por que um, eles começaram a tocar a balada das joias para Lamashtu, e dois, um gatinho quis dançar comigo.

    — Onde está o rapaz e o que você tá fazendo aqui sozinha? — Indagou o dahllan.

    — Apesar do charme e da língua doce descobri que ele era de Ahllen.

    — E qual o problema? — perguntou Linrienn.

    — Edgar — respondeu imediatamente Enki.

    — Exato! — Falou Mu sorrindo para o amigo.

    — Não é por que minha irmã se apaixonou por alguém de Ahllen e teve um final trágico que você terá também, Mu — explicou Seru.

    — Sinais, meu amigo. Estou cada vez mais convencida que algo vai acontecer aqui hoje.

    — Eu vou dar uma volta — disse o meio-dragão se levantando.

    Linrienn olhou com tristeza o amado saindo com passos pesados no meio da multidão. A mania que Mu tinha de tentar trilhar o mesmo caminho que seus pais pelo fascínio que ela tinha desde criança ouvindo as histórias da razão de ser batizada com esse nome trazia lembranças dolorosas daquele que enganou a morte para criar Enki e garantir que ele encontrasse com sua mãe novamente. Linrienn entendia e amava os dois, mas por vezes via que um machucava o outro sem querer.


Enki se afastou um pouco da praça e ficou olhando de longe toda a movimentação. Enxugou com a mão enluvada uma lágrima solitária e reclamou consigo mesmo:

    — Mu, sua boba — e deu um riso — você é cabeça dura igual a ele.

    — O que disse, rapaz? — Alguém parado ao seu lado perguntou.

    O cavaleiro olhou para a figura que surgiu enquanto estava entretido: um homem de sobretudo pesado e um sorriso sarcástico. Reparou que ele tinha a pele muito pálida e veias grossas demais em seu rosto, que brilhavam em tons metálicos refletindo as fogueiras e braseiros.

    — Nada. O senhor está bem?

    — Melhor que trinta anos atrás! — Disse dando uma risada alta e forçada.

    — Ok — respondeu sem entender nada. —  Com sua licença, senhor.

    — Ernesto! — Ele disse quando o cavaleiro se virou para ir embora — Meu nome é Ernesto, Enki!

    Por um momento o outro hesitou e parou. Olhou para trás novamente e não tinha mais ninguém ali além da fumaça que empestava a cidade toda. Cofiou o bigode por um momento e saiu correndo de volta a seus amigues.

    — Não acredito que ela tava certa!


De repente uma confusão começou na área de dança, Linrienn olhou por precaução mas achou que era só mais um ladrão sendo pego no ato, porém logo armas foram puxadas e um tiroteio começou. Todos buscaram algum lugar para se esconder, mas antes que os três amigues fizessem o mesmo Mu recitou algumas palavras e uma barreira de luz envolveu a mesa os protegendo.

    — Isso não tá parecendo uma confusão qualquer — apontou Seru já segurando na sua arma.

    — Com certeza não — concordou Linrienn olhando à volta e vendo vários focos diferentes de combate. — E o Enki que não volta.

    — Relaxa, amigue — piscou a feiticeira para elu. — Enki sabe se cuidar.

    O som da festa parou e o tiroteio foi morrendo aos poucos quando a população fugia. Em seu lugar, cerca de dez zumbis ficaram na praça e começaram a vir em direção à única mesa que ainda tinha pessoas.

    — Será? Eu não acredito!

    — Que foi, Mu?

    — Acho que são zumbis de ferro! — Ela disse animada enquanto os três se levantavam já se colocando em posição de combate — Olha, as veias metálicas, o corpo duro e forte. São eles sim, tenho certeza.

    — E o Enki que não volta.

    — Olha novamente, Lin — apontou Seru.

    Um zumbi foi pego desprevenido pelas costas e a espada do cavaleiro arrancou sua cabeça, que caiu rolando pelo chão. Esse foi o sinal que todes precisavam: Linrienn correu à frente do grupo empunhando o enorme escudo, abrindo passagem empurrando dois zumbis para chegar até seu amado. Em suas costas, Seru retalhou um zumbi com quatro cortes rápidos, fazendo com que ele caísse aos pedaços enquanto Mu soltava raios de suas mãos que eram atraídos pelo metal de seus adversários e passavam de um para o outro, torrando a maioria que os cercava. Os zumbis continuavam avançando mais lentamente depois disso, com uma fumaça fétida saindo de seus corpos.

    — Meu amor! — Disse Enki defendendo um golpe da garra de um dos adversários com seu escudo —  Mu estava certa!

    — Percebemos! — Respondeu Linrienn acertando outro com a Maça estrela, quebrando sua mandíbula.

    — É pior do que parece! — Ele disse cortando a garra do que tentou lhe atacar — Eu vi o Ernesto.

    — Quem? — Elu se virou para ele enquanto o imenso escudo segurava dois zumbis.

    — Um inimigo de nossos pais — Ele respondeu chutando para longe o zumbi decepado.

    Voando acima de todes, Mu distribuía um enxame de pequenas setas feitas de energia arcana no grupo de zumbis e gritou lá de cima:

— Você disse Ernesto?

— Sim! — Devolveu Enki em outro grito.

    Seru se viu encurralado por três zumbis torrados e sem hesitar começou a fazer uma linda dança com sua katana, cortando cinco, seis, sete, oito vezes os adversários à sua volta. No fim estava sem fôlego mas os três zumbis jaziam no chão de pedra da praça.

    — Eu não acredito que tá sendo tão fácil! — Exclamou uma voz chegando no local, e imediatamente o grupo parou para ver quem chegava.

    Ernesto vinha a passos vagarosos rindo consigo mesmo, enquanto procurava alguma coisa nos bolsos.

    — É ele mesmo! — Exclamou emocionada Mu.

    — Calma Mu — disse Linrienn derrubando o último zumbi que ainda estava de pé com um golpe forte de escudo, seguido de uma maçada certeira no crânio, um ataque rápido e violento, como seus pais haviam lhe ensinado.

    — Acho que eu trouxe pouco zumbis — disse Ernesto coçando a cabeça depois que pegou um pedaço de papel do bolso. — Não imaginava que logo vocês estariam aqui. Que azar o meu!

    — Maldito seja! — Gritou Enki correndo até o adversário com a espada pronta para um golpe certeiro.

    Ernesto se limitou a fazer uma cara de assustado e levantou os braços, mas exatamente quando Enki o acertaria, ele sumiu numa nuvem de poeira brilhante.

    — O que? — O cavaleiro se perguntou.

    — Mandei ele pra outra dimensão, um labirinto igual a tia Prunna faz — respondeu Mu aterrisando na praça.

    — Mas por que?

    — É o Ernesto, cara! Sabe quantas perguntas eu tenho pra ele?

    Enki se limitou a rosnar, mas Linrienn surgiu ao seu lado e lhe tocou o rosto.

    — E quando exatamente ele vai voltar? — Perguntou.

    — Em cinco segundo — respondeu a feiticeira — Eu só não queria que o meu primo dracônico o matasse tão rapidamente.

    — Nós dois não somos parentes de verdade, Mu.

    — Chato! — ela respondeu dando a língua para ele.

    — Não quero incomodar a pequena reunião familiar de vocês — disse Seru se abaixando no local onde Ernesto estava e pegando um pedaço de papel — mas ele deixou isso aqui cair, ó.

    — Traz pra cá, Seru — disse Enki — E mu, já passaram os cinco segundos.

    — Talvez eu tenha errado um pouquinho na magia, eu tava emocionada!

    Depois de alguns minutos eles desistiram de esperar. Ernesto simplesmente não voltou do labirinto arcano que Mu o tinha enviado, porém, ao ler o papel todos se alarmaram e saíram da cidade imediatamente. Nele estava escrito:

Já tenho 4 rubis da virtudes, os outros acho que estão em:

– Montanhas Uivantes;

– Galrasia;

– Deserto da Perdição;

– Pondismânia;

– Vectória