O Jogo

— Como que faz mesmo? —  perguntou Prunna confusa.

Os quatro aventureiros estavam sentados na mesa mais distante de uma taverna tranquila, cada qual com um pergaminho à sua frente.

— Você joga isso daqui —  Mu entregou um dado de formato estranho para a amiga dahlan — e soma com o número que tá do lado da palavra diplomacia aí no seu pergaminho.

— Ainda tô achando muito complicado esse jogo — disse a moça dando de ombros —, mas vamos lá.

Prunna arremessou o dado e, depois de fazer a conta mentalmente, declarou o resultado.

— Maravilha! Você conseguiu bajular o sábio na conversa e ele te disse a localização das ruínas.

— Eu sempre consigo! — ela respondeu ao amigo com um sorriso malicioso.

— Sedrywen e Zanshin, vocês estavam de guarda fora da…

— Eu ainda estou! — declarou o tamuraniano interrompendo Mu. Ele segurava sua katana firmemente e olhava para a porta da taverna. — Assim que os bandidos chegarem eu os avisarei.

— Não, cara — suspirou Mu. — Aqui no jogo!

— Oi?

— O Mu tá dizendo que a gente ficou esperando a personagem da Prunna fora da tenda do sábio — explicou pacientemente Sedrywen.

— Mas nós não estávamos perdidos no deserto?

— Assim não dá, você fica distraído e perde todo o roleplay — reclamou o outro.

— Mu, nós estamos aqui somente para encontrar o bando e descobrir o paradeiro do colar, alguém tem que ficar alerta caso eles apareçam.

— Relaxa cara, meu contato falou que eles só devem aparecer daqui a algumas horas. Dá tempo de jogar um pouco.

— Ok. Mas eu ainda acho esse jogo teatral de vocês muito estranho.

— Eu to gostando! — exclamou a elfa sorrindo.

— Só porque sua bárbara destruiu aquele escorpião gigante praticamente sozinha – lembrou Prunna.

— Confesso que eu me empolguei um pouco com o combate.

— Isso vindo de uma pessoa tão plácida é uma surpresa — disse Zanshin sorrindo para a amiga.

— Eu to jogando… errado? — perguntou a clériga de Glórienn para Mu.

— Não, não. Relaxa! Isso de jogar errado nem existe, você tá indo muito bem.

— Eu ainda não entendi uma coisa: é um jogo em que ninguém ganha? — questionou Zanshin. — Qual o sentido disso?

— O sentido é a gente se divertir, ué — disse Prunna enquanto olhava de forma insinuante para alguém da taverna. — Bora pras ruínas então?

— Era o que eu tava falando antes das interrupções! — reclamou Mu limpando a garganta antes de continuar — a personagem da Prunna sai da tenda e encontra com os amigos que estavam ali fora de guarda. Agora vocês sabem a localização das ruínas que estão procurando há dias, mas já tá escurecendo. O que vocês fazem?

— Creio que a escuridão da noite não será um problema, li aqui na minha ficha que eu possuo um sortilégio chamado luz – disse Zanshin.

— Então não vejo problemas de irmos imediatamente enfrentar os monstros dessa ruína! — disse Sedrywen.

— Opa, ninguém falou que tem monstros lá. Você tá animadinha com os combates, né? — Prunna riu da amiga.

— Desculpa…

— Relaxa! Vocês vão à noite mesmo então, né? Um de vocês aí faz um teste de sobrevivência com dificuldade dezessete já que vocês estão numa espécie de planície, mas tá escurecendo.

— Eu vou conjurar luz, esqueceu? — Lembrou Zanshin.

— Verdade, gasta um ponto de magia aí. Agora a dificuldade é quinze.

— Ok, eu faço! — declarou a dahlan já pegando o dado da mesa.

— Da última vez isso não deu certo… — a elfa pensou alto.

— Verdade, por isso a gente se perdeu no deserto — acusou Zanshin.

— Ahh, tudo vocês reclamam! — Prunna deu língua pros amigos. — Dessa vez não vai sair um no dado!

A barda jogou o dado que foi quicando pela mesa enquanto a tensão do grupo aumentava, mas felizmente mostrou um número alto o bastante para que eles não se perdessem no caminho até as ruínas.

— Uhul! Não falei?

— Parece mesmo que sua sorte mudou — Sedrywen sorriu para a amiga.

— Com certeza — ela respondeu olhando para outro lugar da taverna e deu uma piscadela não tão discreta.

— É o que? Pra quem você… — o tamuraniano começou a perguntar olhando para a taverna que ficava mais movimentada.

— Presta atenção no jogo, Zanshin! — reclamou Mu cutucando o braço do amigo. — A personagem da Prunna consegue se orientar graças às indicações do sábio e da luz mágica que você conjurou. Depois de uma hora de caminhada, vocês conseguem ver as ruínas do que um dia foi um forte militar.

— Tem algum monstro?

— Olha Sedrywen, da distância que vocês estão não dá pra ver nenhum movimento nas ruínas. Querem chegar mais perto pra ver?

— Eu acho arriscado — falou Zanshin —,  melhor a gente ser mais cuidadoso dessa vez.

— Falou o samurai que se joga com tudo nas batalhas e quase sempre acaba no chão com a Sedrywen te curando — riu Prunna.

— O Kessen Tanjou Ryuu é um estilo de combate que preza pelo…

— Tá bom — interrompeu Mu. —  Não precisa falar tanto, a gente sabe que é dessa forma suicida que você luta. O que vocês vão fazer no jogo?

— Por mim a gente só vai pras ruínas de uma vez. Eu já vou com minha espada nas mãos!

— Eu vou com a Sedrywen, já com uma flecha encaixada na corda do meu arco — concordou Prunna.

— Confesso que adorei sua personagem usando arco e flecha, parece muito poderosa! — a elfa disse para a amiga.

— Já que vocês não me deixam escolha, eu as seguirei. Mas vou de prontidão para qualquer sinal de um inimigo.

— Você tá muito tenso, é só um jogo — suspirou Prunna.

— Mas se a gente não encontrar o pergaminho perdido antes do Lorde Bravestorm, ele vai destruir o reino todo. Só nós podemos parar o plano nefasto dele.

— Pra quem não estava prestando atenção, até que você lembra de muita coisa né? – Riu Sedrywen.

— Tá bom, já acabaram? — disse Mu virando os olhos para cima. —  Vocês vão até as ruínas então, é isso né?

— Sim — responderam os três em uníssono.

— Tá, deixa eu ver aqui — disse procurando nos pergaminho à sua frente. — Achei.

Mu colocou o pergaminho no meio da mesa. Nele havia o desenho de ruínas vistas de cima, cheio de diferentes salas e escombros. O rapaz pegou também três miniaturas da sua bolsa e colocou no ponto que era a entrada das ruínas.

— Ai que fofinhos esses bonecos! — Prunna pegou a miniatura que segurava um arco e flecha. — Essa é a minha!

— O que tem a espada é a Sedrywen e o do cajado é o Zanshin — apontou Mu.

— Então vou me posicionar aqui atrás — disse Zanshin colocando o boneco que representava seu personagem na borda do pergaminho.

— Precisa ficar tão atrás mesmo? — perguntou Sedrywen.

— Eu só tenho doze Pontos de vida, posso morrer com poucos golpes.

— Não vou nem comentar pra você não ficar chateado.

— Prunna! — exclamou a elfa.

— O que foi? — ela riu enquanto recebia uma taça de vinho que um garçom lhe entregava sem ter pedido. — Ah, entendi. Agradeça e diga que logo que eu acabar aqui, a encontrarei.

— Tá, vocês estão aí no mapa e de repente vêem um bando de gnolls — disse Mu enquanto colocava mais miniaturas no mapa, do outro lado das ruínas.

— Eles chegaram, vamos pro combate! — falou Zanshin se levantando de forma ameaçadora.

— Não Zanshin, não precisa interpretar assim, pode só falar o que vai fazer. Fora que, primeiro, a gente vai rolar iniciativa.

— Acho que você não entendeu, Mu — Sedrywen disse apontando para a entrada da taverna, onde Mu se viu um bando de sujeitos mal encarados entrando.


Foi uma batalha rápida e logo já estavam de volta à sua mesa. Zanshin, todo machucado recebia tratamento de Sedrywen enquanto Mu guardava os pergaminhos, dados e miniaturas em sua bolsa. Em outra mesa, Prunna ria à vontade enquanto conversava no pé do ouvido de uma linda medusa.

— Quem diria que os bandidos estavam com o colar ainda, né? — falou o rapaz fechando sua bolsa.

— Acho que não conseguiram nenhum comprador, é um adorno famoso na região — respondeu Zanshin enquanto uma luz cálida vinda das mãos de sua amiga lhe trazia conforto, curando milagrosamente seus ferimentos recém adquiridos.

— Mu, por que você tá guardando as coisas? — perguntou Sedrywen quando terminou.

— Ué, achei que a gente já ia embora. E vocês não queriam mais jogar.

— Mas eu ainda tenho um bando de gnolls pra enfrentar!

— E um reino pra salvar do Lorde Bravestorm. — completou Zanshin.

— Eu realmente não entendo vocês!

Este conto foi criado como uma homenagem aos personagens da mesa “Jóias para Lamashtu” do canal do Twitch da Jambô Editora. Foi escrito totalmente sem nenhum fim comercial, sendo uma fanfic que homenageia esta mesa que acho tão divertida. Não deixe de acompanhar suas aventuras todos os sábados à noite no referido canal.