Liberdade e Coragem

Enki entrou no suntuoso salão com passos lentos e cara desanimada. À mesa já estavam seus quatro irmãos mais novos, sua madrasta e, claro, seu pai. Benthos, o Dragão-Rei. Todos em forma humanóide, Benthos e a nova esposa conversavam entre si e riam enquanto os quatro garotos dragão, de pouco mais de sete anos, implicavam uns com os outros jogando comida, puxando seus cabelos e rindo alto. Mais um jantar em família que Enki, já com seus quatorze anos, não aguentava mais.

— Chegou o fracote! — disse um dos irmãos. Eram quádruplos e Enki fazia questão de não lembrar quem era qual.

— Já conseguiu virar nossa forma verdadeira, irmãozão? — Riu outro.

— Claro que não, passa o dia no quarto tocando aquele madito tambor e lendo! — Respondeu um terceiro

— Por que vocês não calam a sua maldita boca, que inferno! — Gritou o adolescente fazendo com que todos se calassem.

— Enki, eu não sei o que houve, mas não vou tolerar esse tipo de comportamento entre meus filhos. — Benthos falou firme.

— Que seja — respondeu Enki se virando e saindo com passos pesados do salão. Os irmãos ficaram chorando e reclamando para a mãe, claramente fazendo manha enquanto Benthos acompanhou com o olhar triste a saída de seu primogênito.


A porta de madeira do seu quarto foi batida por três vezes e Enki demorou o máximo que pôde para responder.

— Pode entrar.

Benthos abriu a porta e entrou. O quarto de seu filho era um território quase desconhecido já que ele não ia ali há anos. Descobriu algumas roupas espalhadas, vários tomos e livros organizados em uma estante, algumas flâmulas de reinos e organizações de cavalaria da superfície e, em cima de uma mesa, um tambor muito parecido com o que a mãe do rapaz usava. Isso fez com que o Dragão-Rei engolisse em seco antes de falar:

— Meu filho, vim ver como você está — disse se sentando na cama ao lado do rapaz que, deitado, tinha os olhos vermelhos e passava o braço para disfarçar.

— Olha pai, eu sei que esse era um banquete de boas vindas — respondeu se sentando na cama — pelo senhor estar sempre longe protegendo nosso reino daquele lorde tamuraniano e suas pragas, fora a guerra na superfície. Mas eu não aguento mais viver aqui.

— É algo a ver com nossa família? Percebo que existe uma distância entre você e seus irmãos.

— Tem isso, mas não é o que mais me incomoda. Eu sinto falta, sabe, de — o rapaz hesitou em seu pedido.

— Como assim? Te falta algo? Eu dei ordens para que todos os seus pedidos fossem atendidos. Trazemos sempre da superfície tudo que você pede. Não acredito que falte algo para meu primogênito, aquele que herdará meu reino.

— Falta sim pai, falta liberdade.

Um silêncio incômodo se instaurou no quarto. Benthos se levantou da cama e parecia tentar escolher as melhores palavras para dizer. Seu filho se levantou também e diante da falta de desculpas do pai preferiu ir até a varanda de seu quarto observar as áreas vizinhas do imenso castelo submarino. Logo seu pai veio para seu lado.

— Sabe Enki, por que você acha que eu me casei com a Qozzet?

— Por questões diplomáticas.

— Não. Isso foi a desculpa. A verdade é que eu não queria ter uma companheira que se aventurasse por aí e corresse tantos riscos quanto sua mãe. — Enki se virou e o viu olhos que agora estavam marejados — Doeu muito perder Prunna. Eu fiquei sem saber o que fazer e isso ajudou que o maldito Mikazuki fizesse o que quisesse.

— Você nunca me contou isso — falou o adolescente abraçando o pai e chorando também

— Eu entendo que você se sinta sem liberdade, mas eu te mantenho aqui para sua proteção. Você não tem noção como estão as coisas na superfície, meu querido filho.

— Eu tenho sim pai — confidenciou o rapaz se afastando — eu ouço as conversas dos guardas e de seus generais. Eu sei que as coisas estão difíceis e eu acho que posso ajudar fazendo mais do que ficando preso em meu quarto.

— Você se parece muito com sua mãe. — sorriu tristemente o Dragão — Eu imaginava que essa hora chegaria, você buscou todas as histórias que pôde sobre o grupo dela. Eu temia viver o dia em que você pedisse pra sair por aí se aventurando, tentando terminar o que ela entregou sua vida pra fazer.

— Não é isso. Eu sei que agora não posso fazer muito, mas existe resistência lá em cima, pai. Existem pessoas que podem me treinar. Eu quero ser o cavaleiro que vai arrancar a cabeça do Mikazuki.

— Eu entendo meu filho, eu também odeio aquele maldito. Mas tem certeza que quer trocar a segurança de nosso lar para possivelmente acabar morto na superfície?

— Isso aqui não é vida, pai. Muitos estão morrendo lá em cima para que eu aproveite do que eu não quero. Me deixa fazer alguma coisa. Pela mamãe.

Depois de um minuto em silêncio olhando para as cercanias do castelo, Benthos se virou para o filho.

— Tem minha benção, Enki. Mandarei um esquadrão te acompanhar até onde você quiser lá em cima, me deixe pelo menos fazer isso por ti.

— Obrigado pai. — disse o rapaz sorrindo pela primeira vez naquele dia. Olhou para um uma flâmula que mostrava Valkaria — eu já até sei para onde ir.

— Que bom. E me mande notícias regularmente, Sagara estará sempre à sua espera nas praias, basta chamar seu nome e ele aparecerá.

— Combinado! — disse o rapaz já pegando uma mochila e colocando roupas e outros itens ali.


Do portão principal Benthos e sua família viam o jovem Enki nadando junto de dez soldados, indo para a superfície.

— Tem certeza sobre isso? — Perguntou Qozzet

— Não. Mas é o desejo dele, não posso me opor.

— Sei que não é meu filho, mas eu me preocupo. Ele é frágil, não é totalmente um dragão.

— Acho que a outra metade é seu forte. Prunna não se deixava parar por nada, ele herdou isso dela. — A esposa ficou em silêncio — Às vezes eu invejo essa coragem que eles têm.

Depois de sumir no oceano todos entraram novamente no castelo, menos Benthos que permaneceu ali, olhando para o alto.

— Mikazuki não vai roubar de mim a única coisa que me liga ao amor da minha vida — falou para si mesmo. — Acho que é hora de eu lhe fazer uma visita diretamente e acabar com isso de uma vez por todas.