Filha de Glórienn

Andando de forma lenta e cabisbaixa, a elfa se mantinha à margem da estrada. De ombros caídos protegidos por uma capa imensa cobrindo todo o corpo, seu farto cabelo roxo cortado à moda de Glórienn balançava ao vento no anoitecer. Por sorte mais à frente uma estalagem posicionada estrategicamente na estrada daria abrigo à moça que caminhava vagarosamente olhando para o chão.

Entrou calada, sentou-se quieta em um dos bancos no balcão e somente apontou para a caneca da medusa que estava por ali no balcão.

— Vinho? — Perguntou o homem no bar.

Limitou-se a concordar com a cabeça. O homem logo lhe entregou a bebida e ela se manteve ali, quieta. Por vezes mexia em um lindo broche que tirou do bolso, um arco e flecha prateados, mas suspirava e tornava a guardar o objeto.

— Se não comes nada vais passar mal — ouviu uma voz poderosa como um trovão falar ao seu lado.

Viu um homem sentado no banco ao lado. Trajava uma armadura de metal já muito usada, cheia de marcas de batalha. Aos seus pés repousavam uma sacola de viagem e um grande machado de dois gumes cujo cabo estava a poucos centímetros da mãozorra cheia de calos. Percebeu que ele falou sem olhar para ela, entretido em se alimentar de um assado cuja carne Sedrywen não identificou.

— Muito obrigada pelo cuidado — ela disse se assustando, sem ouvir sua própria voz há dias — acho melhor…

— Bom homem, traga um assado para esta menina — ele a interrompeu enquanto lambia um dos dedos. A olhou pela primeira vez nos olhos. — Por minha conta, não te preocupes.

— Obrigada mais uma vez. Não precisava.

Logo um prato de carne assada com poucos vegetais cozidos foi colocado à frente da moça e ela pegou os talheres com uma elegância única frente aos frequentadores do local. Mecanicamente colocava pedaços de comida na boca e se forçava a comer.

— Tua palidez está diminuindo, isso é bom — rugiu o homem ao seu lado — logo terás forças novamente para voltar a se aventurar, noviça.

— Como sabe o que sou?

— Além das vestes clericais por baixo de tua capa? — ele perguntou enquanto ela percebia que a capa aberta mostrava sua roupa. Fechou rapidamente. — Outra pista foi o símbolo da tua Deusa que insistes em observar e guardar.

— Não é mais minha Deusa — ela disse desviando o olhar do estranho — Não faço mais seus milagres. Acredito que não seja mais digna. E sem minha magia não voltarei a me aventurar.

— Besteira — respondeu o outro de supetão, buscando o olhar da elfa com uma firmeza desconcertante. — Nem todos precisam de poder divino para lutar. Basta usar tuas capacidades da melhor forma que consegues e ter companheiros valorosos ao teu lado.

— Esse é outro problema: meus companheiros. Eu que os curo, os protejo. Agora não posso mais.

— Como não podes, filha de Glórienn? — o homem se virou completamente para o lado, encarando Sedrywen. — Sabes usar o arco, não?

— S-sim — respondeu ela, lembrando dos anos de juventude quando brincava pelos bosques e participava de torneios com seus irmãos e amigos

— Então pronto. Queres melhor maneira de proteger alguém do que evitando que se machuque? Acerte teus inimigos de longe antes que eles sequer cheguem em teus companheiros. Usa tua força para proteger aqueles que estão sob teus cuidados e tudo ficará bem.

Sedryewn pegou novamente o broche prateado mas desta vez com outro olhar. O arco e flecha representados ali deixaram de ser um peso frente à nova expectativa que acabara de ouvir do estranho. Agora o broche era um símbolo de força e esperança. Decidiu ouvir o conselho do guerreiro ao seu lado.

— Obrigada. Você não sabe o que acaba de fazer por mim.

— Reconheço o brilho do teu olhar — ele disse sorrindo enquanto se levantava. — Tu serás grande, filha de Glórienn, e protejerás teus companheiros com tamanha força que teus inimigos se surpreenderão.

Sedrywen nem percebeu o desconhecido largando alguns tibares no balcão e indo embora. Pela primeira vez em meses fazia planos de forma animada, pensando em voltar ao seu lar e pegar as armas que deixou guardadas quando decidiu entrar para o sacerdócio. Sentia-se viva e, principalmente, forte. Um sorriso lhe escapou quando pensou nisso.


O homenzarrão saiu da estalagem e ninguém viu quando, dando poucos passos, sumiu em plena noite. Longe dali, em meio a um imenso e complicado labirinto, tornou a aparecer. Aos poucos sua aparência desvaneceu e deixou de ser homem: cresceu em tamanho e seu corpo de peito nú sustentava uma cabeça flamejante de touro. O imenso machado foi a única coisa que permaneceu igual.

Andou pelo labirinto até chegar em uma confortável sala. À sua frente a visão de diversas cenas de Arton mostrava continuamente lutas do passado e presente para seu deleite. Em um canto, deitada em meio a almofadas de beleza única, uma elfa de cabelo roxo lhe mirou com o olhar entediado.

— Cuidei de tua serva assim como prometi cuidar de ti — ele falou sentando de forma imponente em seu trono — agora me sirvas com meu melhor vinho, sim?

Este conto foi criado como uma homenagem aos personagens da mesa “Jóias para Lamashtu” do canal do Twitch da Dragão Brasil. Foi escrito totalmente sem nenhum fim comercial, sendo uma fanfic que homenageia esta mesa que acho tão divertida. Não deixe de acompanhar suas aventuras todos os sábados às 18:00 no referido canal.