A Batalha do Mestre

Thiago acordou arrasado. Essa semana tinha sido péssima, muito trabalho e todo o stress que vem acompanhado. Pelo menos tinha conseguido terminar aquela matéria pra revista e estava adiantado no texto do suplemento de seu jogo. Permitiu-se sorrir e respirar fundo. Olhou para a varanda e viu o sol brilhando entre as suas calças jeans que, estendidas, tanto demoravam a ficar limpas. Viu sua esposa trabalhando meticulosamente na sala com sua cachorrinha deitada ao lado e sorriu. Era sábado, não precisava sair de casa e tinha mesa do Joias para Lamashtu mais tarde. Seria um bom dia.

Algumas horas mais tarde, depois de realizar seus afazeres domésticos, almoçou uma quentinha de bife à parmegiana que infelizmente veio com farofa mais uma vez. Ligou para reclamar, mas o restaurante disse que ele mesmo tinha feito questão da farofa. Achou estranho, preferiu pensar que tinha sido uma confusão do restaurante e desligou. Sentou-se no sofá para assistir um episódio qualquer de Bleach, seu anime favorito, enquanto dava uma olhada no twitter despreocupadamente. Entre curtidas de seus amigos sobre seus reportes jogando Mass Effect, novas tretas do mundo RPGístico e fotos de alguém que recebia o Karyu Densetsu em casa com textos carinhosos, Thiago viu uma postagem que ele mesmo tinha feito algumas horas antes e se alarmou. A postagem dizia: “Faltam dez horas para (o fim de) Joias.”.

— Ele acordou — Thiago pensou, já suando frio.

Correu para o banheiro e olhou fundo em seus próprios olhos pelo espelho. Nada de anormal. Deu um suspiro e começou a pensar rápido, ele sabia que tinha pouco tempo para contra-atacar. Foi para o seu computador e imediatamente abriu o Roll20 e a pasta que continha os planos para as próximas sessões. Percebeu uma modificação no arquivo da próxima sessão, a modificação datada de algumas horas atrás. Foi Ele.

Abriu o arquivo e ficou horrorizado. A força dos inimigos tinha sido aumentada em níveis alarmantes. Seus jogadores nunca conseguiriam a vitória. Ouviu um riso demoníaco ecoar dentro de sua cabeça quando seus dedos começaram a se mexer sozinhos e a escrever no arquivo: “Não tem volta, nem tente mudar os inimigos!“.

Finalmente Ele tinha acordado. Thiago ficou paralisado olhando para o monitor. Respirou fundo e se colocou a pensar. Conhecia seu inimigo e seus métodos. Na maioria das vezes Ele não era mal só pelo prazer de ser mal, era mais como um desafio para o próprio Thiago solucionar. Pensou novamente nas palavras recém-escritas na sua frente, havia algo ali que poderia usar, algo que Ele deixou de propósito e Thiago poderia aproveitar.

— Thi —  chamou sua esposa — o Ramon mandou mensagem perguntando por que você não tá respondendo a ele.

Foi quando Thiago percebeu que seu celular, a centímetros de sua mão, brilhava indicando uma mensagem recebida. Thiago sorriu.

Desbloqueou o celular e foi direto na conversa. Mas sabia que Ele estaria olhando por seus olhos, então colocou a mão direita por baixo da mesa e começou a digitar no celular sem nem mesmo olhar. Sua mão esquerda começou a digitar sozinha no teclado do computador e na tela apareceu escrito: “O que está fazendo? Não adianta, hoje eu vou mestrar aquela maldita mesa. Hoje é o fim!“. Mas Thiago continuava a sorrir confiante enquanto digitava com a outra mão no celular escondido.

Dali a cinco minutos ele parou, colocou o celular novamente na mesa e se afastou. Deitou na cama para relaxar um pouco: o plano estava em curso e agora tudo o que precisava fazer era esperar. Sentiu que Ele estava desesperado dentro de si, curioso e atento.

— O Ramon mandou dizer que o Odmir vai ajudar —  disse sua esposa.

— Obrigado, meu bem —  respondeu enquanto a voz em sua cabeça gritava maldições.

Voltou ao sofá e para assistir Bleach e se acalmar. Faltava pouco tempo para a sessão e percebia que Ele estava cada vez mais agitado. Thiago sorria.

Finalmente o jogo começou. Thiago abriu a boca para falar mas quem ditava era Ele. O que era um simples jogo de magibol se transformou em uma combate feroz. Os principais inimigos do grupo apareceram ainda mais fortes e rapidamente dominaram a luta. Thiago via o sofrimento no rosto de seus jogadores, o chat em desespero, ninguém acreditava que seria possível resolver aquela situação. Foi quando Thiago, reunindo toda a coragem e força de vontade do mundo, tomou o controle da narrativa e falou:

— Nisso vocês todos vêem um portal se abrindo. Do outro lado, uma versão arrasada do campo, tudo vermelho e destruído. Mas deste portal surge um cavaleiro de armadura azul brilhante, empunhando uma espada e um escudo pesado com o símbolo de Valkaria.

E com alguns cliques, Ramon foi incluído na mesa. Usando a arte que Odmir fez com tanta velocidade e talento, o homem se apresentou como Enki, filho de uma das jogadoras que veio do futuro. Tendo uma ficha altamente forte e combada, Thiago viu o desespero que Ele sentiu ao ser derrotado mais uma vez.

Dali em diante, Thiago controlou a narrativa e tudo saiu conforme o esperado. Era mais uma semana em que triunfou sobre Ele e a mesa de Joias para Lamashtu continuaria. Mas toda noite na cama, antes de dormir, o mesmo medo permeava sua mente: até quando true_shinken continuaria vencendo o fake_shinken?